A solidão é algo
engraçado. Não precisa estar sem ninguém por perto para se sentir solitário,
basta não ter ninguém que te ouça. Não me refiro a ouvir palavras ditas, refiro
a ser compreendido.
Acho que fui uma pessoa
solitária quase que a vida toda. Disseram me uma vez que minha mãe sofreu tanto
no parto da minha irmã mais velha que ela não conseguiu ficar feliz com minha
concepção... foram além, e num momento de maldade me disseram também que ela foi
pega tentando fazer um chá abortivo para me tirar. Pois bem, essa estorinha
dizem ter sido escondida de mim porque eu ia ficar “traumatizada”, e que eu já
era “revoltada” ia ficar muito mais.
Gente, nunca me senti
inferior nem por isso nem por nada! Só acho que sempre tive o que merecia. E se
tinham mais ou menos privilégios que eu, também seria por merecimento. E
estranho, pois sempre tive esse sentimento de justiça desde que me entendo por
gente.
Revoltada tenho certeza
que sou mesmo. Mas minha maior e mais velha revolta da vida é exatamente o fato
de nunca ter sido realmente compreendida. Como pode uma pessoa pensar tão
coerentemente mas se expressar completamente diferente¿ Sempre tive dúvidas se
sou eu que não explico direito ou se as pessoas que não me entendem. Daí então
passei a duvidar da minha sanidade mental.
A cada dia que passa, o
exterior a minha mente tem menos importância para mim. Aqui dentro tudo se
encaixa, estórias, palavras, explicações, casos, tudo dá certo, tudo acaba bem.
E cada vez mais coisas mirabolantes são acrescidas. Aqui vive todos os
personagens da minha vida real, mas sabe de uma coisa¿ Aqui dentro eles me
escutam. Sentam em adoráveis poltronas tomam um delicioso refresco preparado
por mim, e conversamos todos juntos horas a fio! Minhas palavras fluem numa
facilidade incrível. Todos me olham atentamente e degustam cada palavra, sentem
o sabor delas veem as cores diversas de cada letra, aspiram calmamente o cheiro
de todas sentenças.
Na maioria das vezes só
escutam, mas vejo a compreensão em seus olhos. Outras vezes fazem perguntas,
muitas delas. A cada resposta, nasce um novo argumento, um novo assunto, e
converso a noite toda! Até amanhecer. E todos continuam atentos.
Aqui dentro
nunca estou errada. E cada vez menos quero sair.
Do lado de fora o silêncio tem sido cada vez maior.
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