Estávamos em uma chácara a céu aberto. Quinto dia de lua crescente, ou seja, já quase totalmente cheia clareando a noite, com algumas poucas estrelas a vista. Colchões espalhados ao redor de uma piscina, com algumas arvores, e uma majestosa fogueira compunham a paisagem alcançada pelas minhas vistas. Um som toca bem alto músicas próprias para o ritual xamânico de Ayahuasca, com frequência específica para potencializar o efeito do chá.
Não quis deitar de início... Fiquei sentada em meu colchão contemplando ora o céu ora o fogo. Um leve vento tomava conta do local, e com isso tomei ciência que estava ali rodeada dos 4 elementos Terra, ar, fogo e água, e isso me fez interagir mais profundamente com o momento.
Contemplei o por longos minutos, sorrindo feliz por estar ali consciente e entregue. Nessa hora acho que o chá começava a fazer efeito. As labaredas da fogueira pareciam estar vivas! Dançavam lentamente, sendo lambidas pelo vento em movimentos que me fascinavam. Não conseguia tirar os olhos. Subiam pequenas cinzas das pontas das labaredas para o céu, e tinha uma arvore ao lado que refletia a luz laranja do fogo, balançando ao vento. Tinha a sensação de que dentro de mim aquela arvore estava dançando, junto com as batidas dos tambores indígenas das músicas que ecoavam.
Depois de um bom tempo sentada, resolvi que era hora de deitar. Contemplando o céu até perceber que ele todo caia muito lentamente... Todo o céu as estrelas, a lua algumas nuvens desciam em cima de mim. Eu girava a cabeça pra olhar todo o céu que pude alcançar ele todo mexia devagarinho, queria levantar os braços pra tentar tocar as estrelas, porque eu achava que realmente podia tocar! Mas não mexi os braços. Parece que ficamos inertes, sem atitude. Queria levantar, andas descalça na grama, molhar as mãos na piscina, colocar minha blusa de frio, mas não. Uma força interior maior me deixava parada olhando o céu.
Resolvi deitar de lado. Acho que o momento que os efeitos do chá chegariam ao ápice estava chegando. Me cobri, pois, começava a fazer um frio pungente pelo meu corpo, junto com sensações de formigamento nos pés. Passei a dar tiques. Tipo aqueles pulinhos que damos quando estamos quase dormindo ou quase acordando.
Senti uns pinicões no rosto. Passei a me coçar um pouco. Fui sentindo todas as minhas emoções possíveis passando pelo meu corpo. Era muito estranho! O medo, a angustia, a tristeza, a alegria, a revolta, o ciúme, a posse era tangível. Eu as sentia passarem pelo meu corpo, podia tocar o medo, apertar a angustia, empurrar o ciúme. Pra mim essas sensações duraram muitos minutos. Batia muita raiva de estar ali, de ter ido, um sono gigante tomando conta do meu corpo. Cochilei algumas vezes, mas acordava em segundos com a ideia que estava em casa, mas não...as emoções estavam ali ainda. Sentia um frio enorme, mas era um frio diferente, ele tocava meu corpo embaixo da coberta quentinha, mas não me feria, não era um frio ruim, era muito bom.
Comecei a sentir muita angustia. Puxava minhas roupas, tentava olhar ao redor, mas as vistas estavam muito embaralhadas. Via minha irmã deitada calmamente como se estivesse dormindo. Sentia uma imensa vontade de levantar ir lá, bater palmas na cara dela e dizer: Ou acorda!! Como você consegue dormir sentindo tudo isso¿ Levanta grita filha! Vem ficar louca comigo! Mas claro, não fiz isso. Hahahaha.
Eu já não suportava mais todas aquelas sensações. Queria que parasse. Eu xingava baixinho, reclamava, me sacodia. Foi quando reparei na forte conexão da música com os nossos sentimentos. Quando os sons eram suaves vinha a paz o sono a calmaria. Mas do nada a musica vinha com novas batidas, tipo aquelas musicas de filmes da idade média. Nesses momentos parecia que ia explodir algo dentro de mim. Enxergava tudo muito turvo, mas tinha várias sensações de estar vendo coisas fora do contexto. Algumas visões, via índios dançando ao redor da fogueira que rapidamente sumiam pelo céu nas cinzas das labaredas. A lua olhava diretamente dentro do meu olho e sorria.
Quando as emoções eram ruins, e eram mais que as boas, eu sentia muita vontade de ir embora. Tampei os ouvidos e comecei a cantar alguma música, não lembro qual, no intuito de não ouvir as músicas que estavam modificando tanto meus sentimentos dentro de mim.
Tentei visualizar problemas pessoais, neuras, resoluções a serem tomadas, objetivos que queria alcançar. Mas durava poucos minutos. Sempre vinha os efeitos, as visões, os calafrios. Ouvia alguns gritos, sussurros, gemidos, nunca saberei se eram reais ou não.
Foram umas 2 horas e meia quando o rapaz que organiza agachou do meu lado com outro copo de chá, dizendo bebe é a segunda dose.
Não tomei. Disse pra ele que queria que passasse logo. Ele não insistiu.
Passado mais algum tempo as pessoas começaram a vomitar, levantar pra ir no banheiro, e eu nada. Nem embrulhando o estomago estava.
O Efeito foi passando muito lentamente. Mas sentia o chá circulando dentro de mim. Aliás, já são 02:37 e ainda sinto.
Depois de 4 horas deitada resolvi sentar. Me sentia muito tonta, mas plena. Resolvi meditar, queria prolongar aquele momento o quanto podia. Voltei a ficar calma, olhava tudo com um sorriso leve no rosto sentindo uma boa paz a tempo não sentida.
A boca amargava um pouco, bebi água. Não vomitei, não fui ao banheiro, não senti náuseas, nada. Só os bons efeitos do chá. Acho que ele aflorou em mim, naquelas horas uma vida inteira de sentidos. Maximizou o que mais tenho que aprender a domar, e o que mais me faz sofrer, meus sentimentos. Pelas coisas, pelas pessoas, por mim mesma. Literalmente senti todas emoções que existe a flor da pele.
Vim embora com muitas vertigens ainda, mas senti que precisava escrever tudo isso. Dizem que o chá nos abre a mente para resoluções, pensamentos com mais clareza, memoria boa, rápido raciocínio, tudo voltado para nosso eu.
Espero colher esses frutos. Foi uma sensação única vivenciada até hoje por mim. Tenha plena certeza que o que você leu até agora aqui não passa nem de longe a experiencia única e intima que foi, impossível de ser transmitida fielmente em palavras.
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